É preciso conversar sobre os incômodos.

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Relacionamentos, em geral, são complicados. Se relacionar com alguém significa criar uma conexão com uma outra pessoa que teve e tem uma vida completamente diferente da sua. Pessoa essa que veio de uma família diferente, nasceu – muitas vezes – em outro ano, estudou em outras escolas, segue outra profissão, mora em outro lugar. Relacionamento significa criar um laço – seja ele qual for – com alguém que vem de um mundo paralelo ao seu.

Os relacionamentos, além de todas essas dificuldades pessoais relativas, também são geralmente moldados de acordo com o que a sociedade impõe de maneira automática. Meninos que crescem sem lavar uma louça e abusam de suas esposas quando casam, meninas que crescem sem trocar a lâmpada e acreditam precisar de um homem pra isso, crianças que assistem seus pais brigando todos os dias e reproduzem o mesmo quando adultos. Tendemos a imitar muito do que vimos quando pequenos e durante nosso crescimento fazemos aquilo que veio de fora parte do nosso ser.

Além de todo o problema com o outro e a conciliação entre as duas partes há também o fator “EU”. Quando falamos, principalmente, em relacionamento no sentido de namoro – seja ele aberto, fechado, a dois, a três ou sabe Deus como -, estamos falando sobre partes que precisam, muitas vezes, deixar um pouquinho de lado o EU e pensar no todo – no conjunto – ou, também, no outro. E cá entre nós, pensar no outro é extremamente difícil, e abrir mão de determinados costumes, mais ainda.

É nessa pauta de ser difícil abrir mão, que chega essa nova onda do tchan de fazer-se de difícil, ignorar o amor ou a paixão e dar a mínima pra pessoa com quem você se relaciona. Essa forma de lidar pode até funcionar pra alguns, mas é necessário que as pessoas compreendam que relacionamento é troca, e não estamos falando de troca de porradas, mas é, também, uma troca muito árdua e difícil. Relacionar-se é conviver.

Nos apaixonamos por alguém e decidimos que vamos compartilhar uma vida com essa pessoa, e quando o fazemos, precisamos estar cientes de que haverá sim desentendimentos, brigas, erros e – espero – muitos acertos. Assim como quando crescemos brigamos com nossos pais e irmãos, no relacionamento entre dois apaixonados – do gênero que for – haverá momentos difíceis também.

Não, não estou dizendo em nenhum momento que devemos aceitar relacionamentos abusivos, abaixar a cabeça pro outro, aceitar ameaças, xingamentos, brigas diárias, violências variadas, só pra mantermos um status de namoro. Estou dizendo que muitas vezes acabamos sentindo tanto medo de futuramente o relacionamento ficar abusivo, ou acreditando naquela utopia de que namoro tem que ser perfeito, livre de brigas e desentendimentos, que esquecemos que estamos lidando com seres humanos.

Existe uma diferença grande entre um relacionamento abusivo e um relacionamento saudável com pessoas que se expressam e debatem seus interesses e ideias. Essa diferença existe e deve-precisa ser notada e pautada. Mas lembre-se, acima de tudo, que a base de qualquer bom relacionamento é a troca – ou seja – a conversa. Que quando algo te incomoda não adianta fazer a pessoa difícil e calar-se. É preciso conversar sobre os incômodos. É necessário, caso haja amor, por os pingos nos i’s e as cartas na mesa, antes que alguém a vire.

Estamos perdendo o contato. Estamos perdendo a chance de discutir e chegar a um consenso. Estamos perdendo a chance de ceder, de se sentir cuidado, de cuidar de alguém. Estamos perdendo a chance de agradar e de sermos agradados, pela simples vontade de fazer o outro feliz. O eu importa muito – muito mesmo -, temos mesmo que nos amar muito e nos conhecer demais antes de conhecer alguém pra nossa vida. Mas é preciso saber que ali, naquela pessoa, há um ser tão profundo, tão importante, tão querido e amado, e que tem tantas vontades e ideias quanto você. É preciso se amar, amar o outro, e respeitar o fato de que o outro também se ama, também pensa, também sente, e também faz parte da relação.

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Eu continuo dançando sozinha

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“I’m in the corner,
Watching you kiss her,
I’m right over here,
Why can’t you see me?
I’m givin’ it all,
But I’m not the one you’re takin’ home.
I keep dancing on my own.”
(Robyn)

O corpo e a mente volta e meia tem um entendimento meio estranho. Nossas reações são tão rápidas que, às vezes, nem nossa mente entende o que o corpo ta fazendo.O corpo faz, e depois pensamos sobre o feito. Eu dançava sozinha enquanto a música tocava, e podia sentir aquela vibração subindo desde as pontas de meus dedos, até os fios de meu cabelo. Meu corpo todo vibrava com a música, a dança era na praça, e o corpo se mexia conforme o ritmo – ou o não ritmo – de um samba, ou pagode, ou forró, ou um choro, ou algo que eu não conseguia identificar porque – pra mim – o importante ali era o meu corpo se mexendo incessantemente; tentando fazer a cabeça parar de pensar por uns instantes.

E de repente houve a troca de situação. Sem que minha mente tivesse tempo de pensar, uma troca de olhares foi feita, e o que era pra ser cinco segundos virou horas (dias, semanas, meses) dentro de mim. O corpo reagiu INSTANTANEAMENTE. Tratou de botar as borboletas pra revirar no estomago – e elas estavam paradas há tanto tempo que até fizeram barulho de coisa enferrujada -, o coração pra tentar pular pela garganta e as mãos a tremerem – dessa vez não pela música. Segurei o respirar por dois segundos e tentei voltar a vida normal. Mas a vida normal é muito – muito – chata.

Vê-la ali, entretanto, também não era a melhor coisa do mundo. Tentei fugir do mundo, então e me enfiei dentro do meu próprio particular de passos tortos e músicas sem ritmo. Dançando com as mãos pra todos os lados e seguindo a sequencia que meu corpo mandasse. Continuei dançando sozinha e, para evitar trocas de olhares muito difíceis de segurar, fechei os olhos.

Alguns olhares são impossíveis de segurar; carregam dentro de si um peso enorme de várias questões não respondidas;  a idade – cada vez maior – dos sentimentos que foram trancafiados dentro do peito por um motivo ou outro, expõem o mais duro e o mais sensível da alma de uma pessoa e, vez ou outra, dão passagem pra uma quantidade assustadora de palavras não ditas.

E aquele olhar de cinco segundos que durou a vida só durou a vida porque foram cinco segundos de palavras não ditas e de todos os sintomas citados acima. Vim pra casa repassando todo aquele texto imenso silencioso que me foi transferido e tentando entender porque diabos as coisas funcionam desse jeito? Porque, convenhamos, Deus não foi muito bacana quando permitiu que mesmo escolhendo não falar mais nada sobre um assunto, as palavras escapassem pelos olhos dessa forma.

A conexão foi imediata, e ao mesmo tempo, o desespero.

  • Mas por que diabos você fechou os olhos?
  • Mas é muito claro que eu não tenho coragem de ouvir o final da estória.

Porque todas as outras vezes que aquele olhar me foi dado, o fim da frase sem som era sempre um pedido de desculpas, e o som de chamada perdida do olhar que encara o chão.