Eu continuo dançando sozinha

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“I’m in the corner,
Watching you kiss her,
I’m right over here,
Why can’t you see me?
I’m givin’ it all,
But I’m not the one you’re takin’ home.
I keep dancing on my own.”
(Robyn)

O corpo e a mente volta e meia tem um entendimento meio estranho. Nossas reações são tão rápidas que, às vezes, nem nossa mente entende o que o corpo ta fazendo.O corpo faz, e depois pensamos sobre o feito. Eu dançava sozinha enquanto a música tocava, e podia sentir aquela vibração subindo desde as pontas de meus dedos, até os fios de meu cabelo. Meu corpo todo vibrava com a música, a dança era na praça, e o corpo se mexia conforme o ritmo – ou o não ritmo – de um samba, ou pagode, ou forró, ou um choro, ou algo que eu não conseguia identificar porque – pra mim – o importante ali era o meu corpo se mexendo incessantemente; tentando fazer a cabeça parar de pensar por uns instantes.

E de repente houve a troca de situação. Sem que minha mente tivesse tempo de pensar, uma troca de olhares foi feita, e o que era pra ser cinco segundos virou horas (dias, semanas, meses) dentro de mim. O corpo reagiu INSTANTANEAMENTE. Tratou de botar as borboletas pra revirar no estomago – e elas estavam paradas há tanto tempo que até fizeram barulho de coisa enferrujada -, o coração pra tentar pular pela garganta e as mãos a tremerem – dessa vez não pela música. Segurei o respirar por dois segundos e tentei voltar a vida normal. Mas a vida normal é muito – muito – chata.

Vê-la ali, entretanto, também não era a melhor coisa do mundo. Tentei fugir do mundo, então e me enfiei dentro do meu próprio particular de passos tortos e músicas sem ritmo. Dançando com as mãos pra todos os lados e seguindo a sequencia que meu corpo mandasse. Continuei dançando sozinha e, para evitar trocas de olhares muito difíceis de segurar, fechei os olhos.

Alguns olhares são impossíveis de segurar; carregam dentro de si um peso enorme de várias questões não respondidas;  a idade – cada vez maior – dos sentimentos que foram trancafiados dentro do peito por um motivo ou outro, expõem o mais duro e o mais sensível da alma de uma pessoa e, vez ou outra, dão passagem pra uma quantidade assustadora de palavras não ditas.

E aquele olhar de cinco segundos que durou a vida só durou a vida porque foram cinco segundos de palavras não ditas e de todos os sintomas citados acima. Vim pra casa repassando todo aquele texto imenso silencioso que me foi transferido e tentando entender porque diabos as coisas funcionam desse jeito? Porque, convenhamos, Deus não foi muito bacana quando permitiu que mesmo escolhendo não falar mais nada sobre um assunto, as palavras escapassem pelos olhos dessa forma.

A conexão foi imediata, e ao mesmo tempo, o desespero.

  • Mas por que diabos você fechou os olhos?
  • Mas é muito claro que eu não tenho coragem de ouvir o final da estória.

Porque todas as outras vezes que aquele olhar me foi dado, o fim da frase sem som era sempre um pedido de desculpas, e o som de chamada perdida do olhar que encara o chão.

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