Não-amor

desabafos

Estou sofrendo de não-amor. É uma sensação estranha que me invade o peito todas as manhãs quando acordo do meu sono quente e gostoso pra todos aqueles pensamentos vazios do dia-a-dia. Meu acordar não tem um nome ecoando aos ouvidos, nem uma imagem esvoaçando os pensamentos, nenhum cheiro que eu gostaria de sentir ao abrir a janela e nenhum toque que eu deseje sobre minha pele.

Estou sofrendo de não-amor, porque quando me levanto e me encaminho ao banheiro, não deliro em alguém me preparando o café da manhã, nem com alguém me esperando no box escuro e vaporizado do banheiro; na verdade, o banheiro tá sempre deserto, cheio apenas das pegadas que eu deixei ontem a noite enquanto, ainda bêbada e suja, me despia pra me lavar. Estou sofrendo de não-amor e esse não-amar é intenso.

Ele corrói minhas paredes do corpo, todas as camadas da pele, e penetra feito ar os meus pulmões; infiltra-se no meu sangue, circula o meu corpo todo, chega até minha mente e me faz pensar em todas as coisas vazias que eu tenho que fazer nessa semana: as contas não pagas, as horas não dormidas, os almoços e as jantas, os deveres e afazeres, o trabalho comum, a faxina da casa; me faz pensar que seria bom ligar pra minha mãe: “tá tudo bem aí?”, “tá sim, o de sempre, e por aí?”. E o vazio de todas as palavras que serão ditas, todos os bons dias, todas as boas noites, “bom trabalho”, “até amanhã”, “foi bom te ver”, “volte sempre”. Estou sofrendo desse não-amor porque não foi bom ver ninguém essa semana, nem na que passou, e porque não há ninguém que seria bom ver. Estou sofrendo de não-amor porque não amo. E esse não amar é tão insano.

Ando pelas ruas, depois do café, e sei exatamente o caminho que devo percorrer; não passei um batom, não mexi no cabelo, não me interessa se cheiro bem ou se o perfume não combina com a claridade e calor do dia. Só vou, porque não há ninguém que me interesse no caminho, e ninguém que me aguarde na chegada. É o mesmo de sempre, não há borboletas no estômago nem saindo pela garganta; aqui dentro, só fome e rouquidão.

Esbarro em uma ou duas pessoas, tropeço nas trocas de calçadas – cada casa com sua maldita necessidade de ser diferente uma da outra – não olho bem por onde vou, só vou. Meu corpo sabe exatamente onde chegar, quando parar e olhar, os carros e as bicicletas passam – seus caminhos de sempre – . Sigo e vou. E quando chego faço tudo como sempre tenho que fazer, sem olhar nem ver. Estou sofrendo de não amor.
Nas noites quando saio me arrumo toda, meu cabelo, minhas unhas, minha roupa mais bonita e meu perfume mais cheiroso, e busco em todas as baladas e todas as festas que entro pra ver se encontro alguém que supra essa falta que tenho. Será que àquela branca de cabelos curtos e negros é amável? Será que a negra de cachos azuis? Quem eu posso amar nessa festa? Quem vai me arrancar suspiros?

Me olho no espelho. Estou sofrendo de não-amor. Eu quero amar alguém a ponto de ligar três horas da manhã pra dizer que tou com saudades, quero alguém que me faça sair na chuva pra trocar beijos molhados, quero alguém pra quem eu queira me despir inteira e mostrar quem sou. Quero sentir que sou humana e que sinto. Quero ter motivos maiores que eu pra acordar pela manhã.

Mas estou sofrendo de não-amor. E o meu não amor começa quando não amo; e ele nunca vai acabar enquanto eu não amar. Mas falta sujeito nessa frase. Esse não amor não é aberto ao público. Esse não amor tá fechado pra negócios, porque a dona desse estabelecimento não se ama. Tou sofrendo de não amor, e falta muito amar nesse eu. Tou sofrendo de não-amor-próprio. E se não me amo tanto e sempre, como vou amar outrém?

– Rhaissa Ramon
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